Agroturismo nos sítios de agricultura orgânica aproxima consumidor e produtor

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23/01/2017

“Uma coisa é eu falar lá na feira, outra e vir aqui e verificar”, convida Erenilda Ferreira Ghio, presidenta da Associação de Agricultores Familiares Agroecológicos Orgânicos de Campinho (Vero Sapore), de Iconha.

A Associação é uma das mais antigas do município, no sul do estado, e sempre esteve de portas abertas para receber produtores, estudantes, pesquisadores e, claro, os clientes das feiras orgânicas onde a Vero Sapore marca presença.

“A primeira certificação agroecológica quem nos deu foram os consumidores do Barro Vermelho”, poetiza Erenilda. É que a feira, a primeira exclusivamente orgânica no Estado, foi inaugurada em 2002, quando os produtores da Vero Sapore ainda não haviam conseguido a certificação oficial. Assim, para dar mais segurança e confiança aos clientes, surgiu a ideia da visita técnica.

O resultado não poderia ser melhor. Uma frase, dita pelo então presidente da Associação de Moradores, marcou Erenilda: “É esse produto que nós queremos na nossa mesa!”.

Um dos aspectos da agroecologia mais enfatizados por Erenilda e seus colegas da Vero Sapore é o cuidado com a seleção das sementes, especialmente das sementes crioulas ou genuínas. “A nossa semente crioula já está adaptada à região. Essa é a nossa briga. Queremos um resgate das sementes crioulas”, conta a agricultora, que afirma quase não precisar mais comprar sementes, que coleta da própria lavoura, produz as mudas e faz os enxertos.

Caminhando com ela, o marido e os demais colaboradores da Vero Sapore, é nítido a relação de amor e respeito que a agricultora nutre com a “Mãe Terra”, como ela gosta de falar. “Não é Mãe Terra da boca pra fora, é de coração. Porque, uma semente que a gente joga na terra e nasce uma planta ... existe coisa mais sublime que isso?”, exulta.

Circuito pomerano
Em Santa Maria de Jetibá, “o município mais pomerano do Brasil”, os cerca de 60 produtores ligados à Associação de Agricultores e Agricultoras de Produção Orgânica Familiar de Santa Maria de Jetibá (Amparo Familiar) estão aptos a receber grupos de visitantes. Assim como os agricultores reunidos em outras associações locais.

Selene Tesch, presidenta da Amparo, também encontra, nessa recepção de visitantes, uma forma de aproximar as relações e fortalecer a confiança na qualidade dos produtos comercializados nas feiras. As primeiras visitas acontecem logo que a Associação foi criada, em 2001.

Hoje, além dos sítios orgânicos, a região do Alto Santa Maria integra o Circuito Turístico das Terras Pomeranas, da Prefeitura Municipal, que inclui até um museu. O Museu Pomerano Waiandt Husse está instalado numa propriedade onde 75% da área é coberta de floresta, contando ainda com nascente de água e hospedagem típica.

Desde 2000, já foram mais de três mil visitantes, somente na propriedade da família de Selene. “Quem quiser vir, as portas estão abertas!”, sorri. Basta agendar antes.

Mais de 70 variedades de alimentos
Também das terras pomeranas, o agricultor Lorival Haese é um dos mais populares, no movimento turístico da Feira do Barro Vermelho e um dos primeiros a receber ajuda voluntária de estudantes para atuar em sua barraca e para organizar os passeios aos domingo até seu sítio, na região do Rio Lamego. “Propriedade orgânica é a propriedade onde a natureza que manda”, afirma.

De fato, caminhando por entre os canteiros diversos – são mais de 70 espécies e variedades de verduras, raízes, cereais, frutas, temperos, ervas medicinais e flores – vemos uma paisagem típica de sítios agroecológicos e/ou orgânicos: o “mato” ocupando os espaços entre os cultivares, a água abundante, os pássaros, abelhas e borboletas colorindo e polinizando e protegendo a biodiversidade, os cheiros, as cores, as texturas e os sabores, naturais, vivos, únicos, que confirmamos colhendo um galinho aqui, um fruto acolá, enquanto a visita prossegue.

“A terra tem que produzir os matos, todos os tipos de mato, que são vários nutrientes. Se a gente pulverizar aquele mato, ou roçar, ou queimar, ou capinar e queimar, você vai queimar os nutrientes naturais, as fibras que precisam entrar pra terra onde a água e a raiz entram pra terra, onde a água infiltra, onde a raiz da planta desce pra baixo”, explica o Mestre Lorival.

“Há 40 anos não tinha água aqui. Hoje, graças a Deus, tem reservatório tudo aqui pra cima, tem caixa seca, curva de nível. Tenho medo da água do rio Doce acabar, mas não tenho medo da minha aguinha aqui”, conta.

Assim como Erenilda, Lorival tem um cuidado especial com as sementes orgânicas. “São melhores”, atesta. E também com a compostagem e com a rotação de cultura.

“Rotação de cultura é a coisa mais importante que tem”, afirma. “Cada planta é um nutriente que usa mais. Feijão pega ferro, milho pega fósforo, cana, ureia, banana pega cálcio ... se você plantar uma cultura só, você vai tirar o único nutriente que ela gasta e a outra vai sobrando. Planta só milho, milho, milho, milho ... vai acabar o fósforo da terra e vai sobrar o ferro e os outros nutrientes que o milho não usa. Por causa disso é importante a rotação de cultura”, ensina.

Debaixo do característico chapelão preto, Lorival confessa: “A feira é cansativa, mas tem esse lado bom, essa vantagem, que você consegue trocar ideia com o consumidor. Tem muita gente boa! E a gente não tá lá pra ganhar dinheiro, tá lá querendo servir o pessoal”, emociona-se.

fonte: Século diário