Milho: Situação confortável

Imagem: Maurizio Carta, SXC Imagem: Maurizio Carta, SXC

16/05/2012

A produção mundial de milho tem aumentado progressivamente nas últimas safras: a quantidade produzida passou de 819,35 milhões de toneladas em 2009/10 para 864,97 milhões em 2011/12. Simultaneamente ao aumento de produção, os estoques mundiais têm baixado sistematicamente: os 147,57 milhões de toneladas disponíveis no início da safra 2009/10 caíram para 122,71 milhões em 2011/12, segundo dados do United States Department of Agriculture (USDA). Esses movimentos contrários da produção e do estoque decorrem do fato de que o consumo mundial da cultura continua a aumentar, apesar do arrefecimento do consumo norte-americano.
 
As projeções do International Grains Council (IGC) para a safra 2012/13 são de que a produção mundial aumente em 4%, considerando o aumento de plantios e produtividades compatíveis com condições climáticas “normais”. Nessa situação, a disponibilidade de milho no mundo, considerando produção e estoques, ultrapassaria pela primeira vez o patamar de 1 bilhão de toneladas. Também se esperam grandes produções mundiais de outras culturas, como o trigo. "Certamente, os altos preços que vimos no ano passado estimularam uma resposta da produção global da maioria das commodities", disse Joe Glauber, economista-chefe do USDA, no início do período de plantio nos Estados Unidos.
 
Apesar dos preços do milho vigentes na Bolsa de Chicago no final da safra 2011/12 terem sido inferiores aos observados no decorrer da safra 2010/11, na faixa entre US$ 6,00 e US$ 6,50 por bushel (entre US$ 236 e US$ 256 por tonelada), ainda foram muito atrativos para influenciar a decisão por novo aumento de plantio da cultura por parte dos produtores norte-americanos. Segundo as últimas estimativas do USDA, a área plantada de milho em 2012/13 será de 36,06 milhões de hectares e, com uma produtividade esperada de 10,42 ton/ha, a produção alcançará 375,68 milhões de toneladas, recorde histórico. Tal produção permitirá que os Estados Unidos aumentem os seus excedentes exportáveis e recomponham parcialmente os estoques, o que levará a uma queda nos preços.
 
Considerando um aumento dos estoques dos atuais 19 milhões de toneladas para 43 milhões, projeções do CME Group, a quantidade seria similar à dos estoques finais após a safra 2009/10, quando o preço médio do milho estava na faixa de US$ 3,55 por bushel (US$ 139,76 por tonelada). Porém, os preços não devem cair para esse patamar, pois a razão estoque/consumo para a próxima safra, que é um indicador mais importante para a projeção de preços, será menor do que a de 2009/10. Essa razão foi de 13,1% em 2009-2010, enquanto que para 2012/13 espera-se uma razão de 12,6%, decorrente do aumento de consumo. Na safra 2007/08, ocorreu uma relação similar e os preços ficaram na faixa de US$ 4,20 por bushel (US$ 165,35 por tonelada). Essas estimativas de oferta indicam que o preço de mercado no transcorrer da safra pode baixar de US$ 5,00 por bushel (US$ 196,84 por tonelada), mas o CME Group projeta que os preços no mercado futuro ainda incorporarão o risco climático de verão, permanecendo, assim, em um patamar alto até agosto.
 
Assim como nos Estados Unidos, a área plantada de milho na China também deve aumentar, segundo informações do Ministério da Agricultura chinês, alcançando 35 milhões de hectares, um aumento de 2,7% ante 2011. Esse aumento deve-se não apenas aos altos preços domésticos no país, mas também aos subsídios dados por Pequim. Concomitantemente ao aumento da área plantada, e possivelmente da produção, as importações chinesas de milho devem aumentar 50%, segundo o IGC, totalizando 6 milhões de toneladas. Confirmando a tendência de transformação da China em um país importador de milho, similar, porém em uma magnitude menor, ao que já ocorre com a soja (o USDA estima que a China terá importado cerca de 56 milhões de toneladas até o fim do ano agrícola 2011/12).A produção de milho na América do Sul na safra 2011/12 sofreu com os efeitos adversos relativos à estiagem severa causada pelo La Niña. Essa situação comprometeu a produtividade de muitas lavouras sul-americanas, principalmente a soja e o milho na Argentina. No início da safra 2011/12, nosso vizinho tinha grandes expectativas em relação à produção de milho: com um incremento de 10% da área plantada, projetava-se uma safra recorde de 29 milhões de toneladas. Entretanto, a seca prolongada “derrubou” a produção para 21,5 milhões de toneladas, ficando, assim, no patamar dos níveis históricos. Esse cenário cria expectativas desfavoráveis para safra 2012/13 argentina, pois os prejuízos acumulados na atual safra, somados à inexistência de linhas de crédito e seguros governamentais para a agricultura, deixarão os produtores em uma situação complicada para financiar a próxima plantação.

Situação Interna
 
As mesmas condições climáticas que comprometeram a produção na Argentina na safra de verão também afetaram o Sul do Brasil, até então a maior região produtora de milho do país. A produção da safra verão 2010/11 na região foi de 15,39 milhões de toneladas, mas, com a estiagem do La Niña, a produção na safra 2011/12 caiu para 12,85 milhões (estimativa Conab, maio/2012). Santa Catarina e Rio Grande do Sul foram os estados mais afetados e responsáveis por essa queda.
 
O primeiro semestre foi de muitas incertezas em relação à produção da safra 2011/12. Se no início do ano havia diversas informações díspares sobre a safra no Sul, conforme os meses passaram, os resultados da safrinha no Centro-Sul sobrepujaram a “quebra” da primeira safra e a situação foi se tornando mais confortável em termos de abastecimento interno. Esta produção esperada de milho na safrinha é decorrente de fatores climáticos muito favoráveis, que permitiram às lavouras de milho expressar o maior potencial produtivo decorrente de sistemas de produção mais tecnificados (seja em termos de quantidade e qualidade dos insumos, seja pelo melhor gerenciamento do uso da tecnologia). Como resultado, esperam-se um aumento da produção da safrinha no Paraná em cerca de 2 milhões de toneladas e um aumento de 6 milhões de toneladas na safrinha nos estados do Centro-Oeste (principalmente no Mato Grosso). Somada a produção da safrinha com a produção obtida na safra verão, o Centro-Oeste passa ao posto de maior produtor de milho do Brasil, com 25 milhões de toneladas frente aos 21 milhões colhidos na região Sul. No final das contas, o grande ganhador foi o milho brasileiro, que baterá um recorde de produção, com mais de 65 milhões de toneladas em 15,65 milhões de hectares plantados (a maior área plantada com milho na história do Brasil).
 
Mas tudo isto tem seu custo. O preço do milho, que estava em um patamar estável (alto, mas estável) no início do ano, começou a cair, na medida em que as expectativas favoráveis da produção na safrinha começaram a se transformar em realidade. O aumento da produção de milho safrinha esperado no Paraná quase neutraliza a quebra verificada no verão na região Sul (que é a mais sensível em termos de abastecimento de milho). Mesmo em polos consumidores do Rio Grande do Sul, o preço do milho recuou em quase R$ 4,00 por saco, indicando que o pior, para os consumidores, já passou. Se no Sul e no Sudeste a situação se normaliza, no Centro-Oeste, em decorrência da produção esperada para a safrinha, os preços despencaram. Mesmo onde as condições não foram tão favoráveis, como em Goiás, os preços já se situam abaixo dos R$ 20,00 por saca de milho. No Mato Grosso, já se aproximam de R$ 15,00 por saco.
 
Nesta situação, duas dúvidas já se levantam para os próximos meses, que serão decisivos na definição da safra do próximo ano. A primeira diz respeito ao que acontecerá com a safra do Mato Grosso. Certamente, ela terá que ser escoada para o mercado externo e algum tipo de auxílio do Governo Federal será necessário. A segunda dúvida diz respeito à nova situação dos preços do milho e da soja. Com a queda de produção na América do Sul e o apetite voraz da China, os preços da soja apresentaram uma retomada no mercado internacional. Como a safra de milho mostra sinais animadores, a situação dos preços de milho e soja é inversa à que ocorreu no segundo semestre de 2011 e resultou em todo o incentivo para aumento da área plantada com milho. A dúvida é em que medida esta nova situação afetará as áreas de soja e de milho no próximo ano, pois a vida continua.

Fonte: Boletim Informativo do Centro de Inteligência do Milho, escrita por Rubens Augusto de Miranda e João Carlos Garcia